“A arte de criar filhos é como o trabalho de um artesão que faz uma peça de crochê”, disse uma amiga. “Se você solta o fio do novelo muito rápido, os fios se enrolam, formam nós e vira um problema. Mas se você não soltar o fio, a obra não pode ser completada.”
Eu guardei essa frase no coração. Ela me foi dita em uma conversa simples, daquelas que começam despretensiosas e terminam como um alerta suave de Deus. Estávamos falando sobre a adolescência e sobre como essa fase desafia a mente e o coração de quem cria. Meu filho mais velho estava entrando nessa etapa, e eu me via no mesmo dilema: estou segurando demais? Estou soltando cedo demais? Estou sendo firme ou estou sendo severa?
A adolescência é um território novo para muitos pais. Quando nossos filhos são pequenos, tudo parece mais previsível. Nós conduzimos: dizemos o que fazer, decidimos horários, limites, acesso a celulares, eletrônicos e companhias. Mas então os anos passam e, de repente, aquela criança que precisava da nossa mão para atravessar a rua começa a querer atravessar a vida.
Com a adolescência, nasce o desejo de autonomia. E essa fase não é um erro, nem um castigo. É uma transição natural da infância para a vida adulta. O corpo muda, a mente se expande, as emoções ganham força e a vontade passa a ser testada. A antiga criança começa a construir maturidade, discernimento e identidade, e isso pode assustar os pais.
Alguns sofrem porque interpretam esse movimento como rejeição. Mas há diferença entre sair da infância e sair do coração dos pais. Muitos adolescentes não querem romper com a família. Eles querem descobrir quem são, e isso inclui experimentar escolhas, opiniões e limites que antes eram definidos por nós.
É nesse cenário que a pergunta aparece com força: devo deixá-lo livre ou devo tomar as rédeas e mostrar quem manda?
Essa pergunta nasce do amor. Nenhum pai e nenhuma mãe conscientes querem criar filhos perdidos, inseguros ou despreparados. Ao mesmo tempo, nenhum pai e nenhuma mãe deveriam criar filhos incapazes de caminhar. Quando buscamos direção,
encontramos no livro de Provérbios um caminho seguro. Ali vemos com clareza que disciplina e amor não são opostos, são aliados.
“A criança que é corrigida se torna sábia, mas o filho indisciplinado envergonha sua mãe.” (Provérbios 29:15)
“Meu filho, não rejeite a disciplina do Senhor; não desanime quando ele o corrigir. Pois o Senhor corrige quem ele ama, assim como o pai corrige o filho a quem ele quer bem.” (Provérbios 3:11)
Esses versículos nos lembramque orientar, ensinar, treinar e corrigir é parte do chamado de ser pai e mãe. Crianças não nascem prontas para decidir. Elas precisam de estrutura. E estrutura não é prisão. Estrutura é segurança.
Existe uma diferença entre autoridade e controle. Autoridadeé a presença firme de alguém que ama e protege. Controle é o medo disfarçado de cuidado. O desafio da adolescência é manter a autoridade sem confundir com controle. Conduzir sem sufocar. Estabelecer limites sem quebrar o vínculo.
Na infância, a autoridade costuma ser mais intensa. Nós ensinamos, conduzimos e treinamos. A Palavra nos dá um princípio que atravessa gerações: “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele.” (Provérbios 22:6)
E conforme crescem, precisamosaprender a soltar. Não de uma vez, nem com negligência, mas com intencionalidade. A metáfora do crochê volta como instrução prática: se soltarmos o novelo rápido demais, os fios se enrolam. Se não soltarmos, a obra não se completa. A transição saudável pede equilíbrio: soltar sem abandonar, segurar sem aprisionar.
É por isso que, na adolescência, os pais começam a mudar de função. Durante a infância, exercemos autoridade em amor. Durante a adolescência e vida adulta, passamos a exercer influência. E influência só existe quando há relacionamento. Ela nasce de vínculo, respeito e presença real.
Provérbios também alerta os jovens, lembrando que o outro lado desse processo é a honra: “Ouça seu pai, que lhe deu vida, e não despreze sua mãe quando ela envelhecer.” (Provérbios 23:22)
Uma das formas mais poderosas de amadurecer um adolescente é permitir que ele faça escolhas e arque com consequências, conforme a maturidade permite. Soltar aos poucos é ensinar com responsabilidade.
Recentemente, nosso filho pediu para ir a um lugar específico. O lugar não era errado em si, mas não achávamos que seria a melhor opção. Foi quando meu marido disse: “Acho que é a hora de deixarmos ele fazer essa escolha.” E falou ao nosso filho: “Nós preferimos que você não vá, mas vamos deixar você decidir.”
Confesso que, como mãe, foi difícil. A vontade era dizer “não” e encerrar o assunto. O “não” é mais rápido, mais controlável. Mas nem sempre ensina. Em certos momentos, permitir uma escolha faz parte do crescimento. O novelo não pode ficar para sempre preso à mão do artesão.
A Palavra também nos lembra que filhos são como flechas, que no momento certo precisam deixar a mão do arqueiro. O papel do arqueiro não é segurar para sempre, mas preparar, direcionar e soltar com propósito. E como saber o momento certo, o tempo de segurar e o tempo de soltar?
“Se algum de vocês tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá livremente, de boa vontade; e lhe será concedida.” (Tiago 1:5)
Nós não estamos sozinhos nessa jornada. Deus nos dá discernimento para reconhecer quando um limite é necessário e quando uma escolha pode ser permitida. Ele nos dá graça para corrigir sem ferir, orientar sem humilhar e proteger sem sufocar.
Criar filhos, especialmente adolescentes, é aprender a confiar no que foi plantado. É continuar presente, mesmo quando eles parecem querer distância. É sustentar amor, mesmo quando o comportamento parece confuso. Essa fase é passageira, mas a influência de um lar saudável pode ser eterna.
Que em janeiro, enquanto recomeçamos o ano, possamos também reorganizar a forma como enxergamos nossos filhos. Não como ameaças à nossa paz, mas como obras em construção. Não como alguém que está indo embora, mas como alguém que está crescendo.
E que possamos segurar o fio sem prender o filho.

Texto por Tathiana Schulze


