Na culinária brasileira, poucos pratos são tão universais quanto o feijão com arroz. Simples, nutritivo, saboroso, e suficiente para alimentar bem qualquer pessoa. Curiosamente, essa combinação também me fez refletir sobre um outro tipo de nutrição: a emocional, que os pais oferecem aos filhos ao longo da vida.
Desde que me tornei mãe, comecei a mergulhar em livros, métodos e estudos sobre criação de filhos. Em meio a tantas vozes e abordagens diferentes, uma pergunta permaneceu em meu coração: Será que existe uma “receita básica” para educar bem uma criança? Algo como o nosso feijão com arroz — essencial, nutritivo e eficaz?
Foi nesse contexto que encontrei um estudo fascinante do sociólogo Dr. Reuben Hill, conduzido com milhares de adolescentes e seus pais no estado de Minnesota (EUA). A pesquisa classificou os estilos parentais em quatro quadrantes, baseando-se em dois eixos fundamentais: a quantidade de disciplina e a quantidade de amor oferecida pelos pais.

- Pais Permissivos
Representados no quadrante superior esquerdo, são pais que oferecem muito amor, mas quase nenhuma disciplina. Seus filhos crescem com a certeza de que são amados, mas sem limites claros, o que frequentemente gera insegurança e baixa autoestima. Esses pais, com medo de errar ou de serem duros demais, acabam evitando impor regras, o que deixa a criança sem uma estrutura emocional estável.
- Pais Negligentes
No quadrante inferior esquerdo, estão os pais que nem disciplinam nem demonstram afeto. Esta é a combinação mais perigosa. Os filhos crescem emocionalmente carentes, com sentimentos de abandono. Muitas vezes, essa negligência não é proposital: pode vir de pais que enfrentam traumas, depressão ou falta de preparo emocional. O resultado, infelizmente, são filhos emocionalmente feridos e desconectados.
- Pais Autoritários
Este grupo aparece no quadrante inferior direito. São pais firmes demais, com muitas regras, mas pouca expressão de amor. A comunicação costuma ser baseada em brigas e imposições, e o lar se transforma num campo de batalha. Crianças criadas nesse ambiente tendem a desenvolver ressentimento, medo e comportamento rebelde. A disciplina, sem conexão emocional, vira opressão.
- Pais com Autoridade
Esse é o quadrante ideal: pais que equilibram amor e disciplina. Eles exercem liderança com empatia, colocam limites com respeito, e expressam afeto incondicional. Todos na casa sabem quem está no comando, mas também sentem segurança emocional e liberdade para se expressar. Filhos criados assim geralmente desenvolvem boa autoestima, capacidade de autorregulação e relações saudáveis.

Amor e Disciplina: O Padrão Bíblico
Ao refletir sobre esse estudo, percebi como ele se conecta com diversos princípios bíblicos. A Palavra de Deus nunca separa amor de disciplina. Pelo contrário, ela mostra que a correção é uma forma profunda de amar:
“Meu filho, não despreze a disciplina do Senhor nem se magoe com a sua repreensão, pois o Senhor disciplina a quem ama, assim como o pai faz ao filho de quem deseja o bem.”
— Provérbios 3:11-12
“Discipline seu filho, e este lhe dará paz; trará grande prazer à sua alma.”
— Provérbios 29:17
“Repreendo e disciplino aqueles que eu amo.”
— Apocalipse 3:19
Esses versículos reforçam que o amor não é ausência de correção. Pelo contrário, amar é cuidar a ponto de corrigir, orientar e preparar para a vida.
Disciplina Não é Castigo, É Cuidado
Crianças precisam se sentir amadas, valorizadas e aceitas, especialmente quando erram. O amor incondicional é a base emocional que dá segurança para crescer. Mas isso não exclui a necessidade de limites e correções. Disciplina saudável não humilha, não envergonha. Ela ensina, guia, protege.
Devemos sempre deixar claro para nossos filhos que o que reprovamos é o comportamento, não a pessoa. Que o nosso amor não depende do desempenho, mas que exatamente por amá-los tanto, não podemos permitir que sigam caminhos nocivos. A correção deve ser firme, mas feita com empatia e respeito.
Disciplina É Um Ato de Amor
O pastor e autor Chip Ingram resume bem essa ideia ao dizer:
“Longe de ser uma palavra feia, a disciplina é evidência de amor. Quando você consistentemente disciplina seu filho com compaixão, controle emocional e limites claros, você está expressando amor da mesma forma que Deus faz conosco.”
Disciplinar exige esforço, tempo e equilíbrio emocional. Mas os frutos são incontestáveis: filhos mais centrados, mais felizes e mais preparados para enfrentar os desafios da vida adulta.
Feijão com Arroz da Criação
Se existe um padrão básico que todo pai e mãe pode adotar como “feijão com arroz” da criação de filhos, é este: amor firme, disciplina compassiva.
Pais que se dedicam a desenvolver esse equilíbrio não serão perfeitos, mas estarão construindo um legado emocional sólido, onde os filhos crescem com raízes fortes e asas leves.
Referência:
Pesquisa apresentada por Dr. Richard Meier em seminário sobre criação de filhos – Minirth-Meier Clinic, Dallas, TX – 1988.
Focus on the Family: https://www.focusonthefamily.com

Texto por Tathiana Schulze


