Compartilhe com seus filhos os valores e tradições do Brasil.

No dia 8 de fevereiro de 2026, o país inteiro parou para ver o Super Bowl LX, no Levi’s Stadium, na Califórnia. No intervalo, o que chamou a atenção até de quem não acompanha futebol americano foi o recado cultural: Bad Bunny levou o espanhol para o centro do maior palco do entretenimento americano e reacendeu um debate que vai muito além da música. A cultura latina está presente, é relevante e, cada vez mais, está sendo enxergada como parte do “mainstream” dos Estados Unidos.

Para muitas famílias brasileiras, a sensação foi imediata: se o país está abrindo espaço e discutindo a força da cultura latina em rede nacional, por que dentro de casa, às vezes, a nossa cultura vai ficando em segundo plano?

Essa pergunta ecoa principalmente quando ouvimos adolescentes e adultos jovens dizendo, com frustração: “Meus pais nunca me ensinaram português. Eu queria ter aprendido. Eu queria ter conhecido mais do Brasil.”

Nesta edição, na coluna Atlanta Superbacana, falamos sobre a cultura latina em evidência. Aqui, na capa, o convite é outro: transformar o orgulho em prática. Como passar adiante o que somos para filhos que nasceram ou cresceram aqui e que são, ao mesmo tempo, profundamente americanos e profundamente nossos?

Brasileiros-americanos: não é só onde nasceram. É como pertencem

A cultura dos brasileiros que não cresceram no Brasil costuma ser construída em camadas. De um lado, a escola, as amizades, o idioma dominante e os códigos sociais americanos. Do outro, a casa, as histórias, os temperos, o humor, a fé, as músicas e os afetos brasileiros, quando isso é cultivado.

E aqui está um ponto essencial: a absorção da cultura americana acontece com força semelhante para crianças nascidas aqui e para crianças que chegaram pequenas. O que muda, muitas vezes, não é a capacidade da criança. É o ambiente linguístico e cultural que ela encontra dentro de casa.
Os números ajudam a entender o contexto. Estimativas oficiais brasileiras apontam cerca de 1,9 milhão de brasileiros vivendo nos Estados Unidos. E o multilinguismo já faz parte do cotidiano americano: no período 2017–2021, cerca de 22% das pessoas com 5 anos ou mais falavam em casa um idioma diferente do inglês. O português aparece com força nessa paisagem, com estimativas de centenas de milhares de pessoas falando português em casa nesse mesmo período. Em outras palavras: criar uma casa bilíngue não é exceção. É parte da experiência contemporânea americana.

A ciência do cérebro bilíngue e por que isso é um presente

A pergunta que muitos pais fazem é direta: “Se eu falar português em casa, meu filho vai atrasar no inglês? Vai ter problemas na escola?”

A resposta científica e clínica mais honesta é: não. Crianças bilíngues não são mais propensas do que crianças monolíngues a ter dificuldades de linguagem ou atrasos por causa do bilinguismo. O que costuma confundir não é a existência de duas línguas, e sim o estresse e a pressão emocional em torno delas.

Outro ponto que tranquiliza muitas famílias: misturar línguas no começo (o famoso “mistura inglês com português”) é comum. Isso não é sinal de fracasso, é sinal de repertório em construção.

Sobre “vantagens do cérebro bilíngue”, existem pesquisas que associam bilinguismo a benefícios como flexibilidade cognitiva e controle executivo, embora especialistas também reconheçam que os resultados podem variar conforme contexto, estímulos e consistência. Mas, para quem cria filhos, o ponto prático costuma ser maior do que qualquer debate acadêmico: bilinguismo amplia acesso.

Acesso ao quê? À conversa com avós sem tradução. À história da família. À cultura sem legenda. Ao pertencimento inteiro.

Mitos que ainda atrapalham e como desmontar sem culpa

Algumas frases repetidas por décadas continuam travando pais bem-intencionados. Vale encarar com serenidade e firmeza.

“Bilinguismo confunde a criança.”

O que confunde a criança é a mensagem emocional. Se português vira bronca, vergonha ou “prova”, a criança rejeita. Se vira vínculo, ela se aproxima.

“Se meu filho tem atraso de fala, preciso parar o português.”

Se existe um atraso real, ele tende a aparecer nas duas línguas. O caminho recomendado é avaliação adequada, de preferência com profissionais que entendam o desenvolvimento bilíngue, em vez de abandonar a língua de herança por medo.

“Para dar certo, tem que ser 50/50 perfeito.”

Na vida real, raramente é. O que pesa é exposição consistente e significativa, dentro do que a rotina permite.

Uma conversa franca, do jeito que acontece em casa

Se você já tentou falar português e ouviu “English, please”, respire. Você não está sozinho. Muitos pais vivem esse momento. O que funciona, quase sempre, tem menos cara de “aula” e mais cara de convivência.

A língua precisa ser associada a afeto. A criança aprende português quando o português mora na rotina, nas risadas e nos rituais. E isso se constrói com pequenas escolhas repetidas.

Alguns caminhos simples, quando colocados em prática com constância, mudam tudo:

Falar português em momentos previsíveis do dia, como manhã, hora de dormir ou refeições. Contar histórias da própria infância com detalhes, nomes, lugares, cheiros. Colocar música brasileira no carro e cantar junto. Cozinhar com a criança e nomear ingredientes em português. Assistir a desenhos e filmes com áudio em português, sem forçar nada. Fazer o Brasil aparecer com naturalidade, e não só em “ocasiões especiais”.

E tem uma dica que vale ouro: troque correção por continuidade. Se a criança falou errado, continue a conversa. A correção pode vir depois, com leveza, ou nem precisa vir se a mensagem foi entendida. O objetivo é língua viva, não performance.

Quando só um dos pais é brasileiro e o português vira “minoria”

Esse é um cenário comum nas famílias com crianças brasileiras-americanas. E ele exige estratégia, não heroísmo.

Quando o pai ou a mãe brasileiro tenta carregar tudo sozinho, o português vira esforço individual. O jogo muda quando o outro cuidador apoia a cultura como valor da família, mesmo sem falar fluentemente. Às vezes, esse apoio começa com frases simples, “boa noite”, “parabéns”, “eu te amo”, “vamos lá”. Quando a criança percebe que a casa respeita o português, ela entende que aquilo importa.

Bilinguismo não é perfeição. É prioridade.

Mamães que decidiram não deixar o Brasil virar lembrança

E para completar a nossa matéria de capa, não poderíamos deixar mencionar algumas histórias de famílias da nossa comunidade que viveram e ainda vivem esse processo.

Katcha Moschitta e Nicholas

Casada com americano e mãe de filho único, Katcha decidiu cedo que o português faria parte da rotina. Ela cantava para o filho Nicholas, conversava, contava histórias, mantinha o vínculo com a família no Brasil. Nicholas cresceu ouvindo sobre avós, tios, primos, e foi ao Brasil várias vezes. Hoje, aos 22 anos, e o nosso modelo de capa da Cia Brasil Magazine deste mês, transita com naturalidade entre a comunidade americana e a brasileira e está terminando a faculdade em Administração.

Cristiane Pope: duas filhas, duas fases, uma lição

Cristiane é casada com um americano e tem duas filhas: Thaynara, de 24 anos, e Rebecca, de 11. Ela conta que a diferença de idade entre as duas ajudou a ajustar rotas. Thaynara fala, lê e escreve português. No high school, foi colunista da Cia Brasil Magazine na coluna “Espaço Teen”, escrevendo sobre a vida como brasileira-americana, e isso fortaleceu o idioma e a identidade. Hoje, ela cursa Comunicação e Marketing.

Com Rebecca, o processo exigiu mais intenção. Thaynara ajudou a ensinar a irmã. Rebecca aprendeu sobre a história da família, participa de pesquisas da árvore genealógica e faz voluntariado na escola, em Cobb County, ajudando crianças recém-chegadas do Brasil a traduzir do inglês para o português e a se sentirem mais acolhidas em uma escola nova onde elas não entendem o idioma. Ela faz isso com orgulho. “Quando eu vejo que uma criança não está entendendo, eu tento ajudar até elas passarem pelo ESOL e aprenderem a falar o inglês”, conta, orgulhosa, a jovem Rebecca.

A prática de tradução silmultânea ajudou Rebecca não apenas a treinar o português, mas também a ganhar agilidade nos estudos, inclusive em matemática e química. Depois de ajudar com tradução, o boletim tem chegado com quase todas as notas “A”. Quando a cultura vira missão, ela deixa de ser “peso” e vira orgulho.

Flavia Leticia e o pequeno Henry

Henry tem 3 anos, filho único de mãe brasileira e pai americano. Ele já aprendeu a falar português e Flavia já traçou um plano contínuo para português e cultura, e Henry tem um diferencial importante: a avó atua como professora particular de português em Atlanta. Quando mais de um adulto sustenta a língua, o português deixa de ser “uma luta de uma pessoa só” e vira ambiente.

Danielle Rocha: irmãos com idades diferentes, apoio diário

Danielle vive um cenário comum: grande diferença de idade entre os filhos. Mathew, hoje com 22 anos, ajudou a ensinar português ao irmão Daniel de 8, que ainda mantém sotaque americano ao falar português. Isso não é problema, é parte do caminho. Danielle resume com simplicidade: “Eu tive muita ajuda da minha mãe e do Mathew, que conversa com ele em português diariamente.”

Estela Young e Beatriz: o português que ficou com sotaque e com amor

Beatriz tem 24 anos e se graduou na faculdade. Ela veio para os Estados Unidos com 6 e assimilou rápido a língua e a cultura americanas. Ainda assim, o português permaneceu. Hoje, ela fala com seu charmoso sotaque carioca, lembrando uma verdade que alivia muitos pais: não precisa soar perfeito. Precisa soar verdadeiro.

Cultura também é saúde emocional

Existe um lado psicológico que muitos pais só percebem tarde: quando a criança não fala a língua da família, ela pode perder acesso a partes importantes de pertencimento. Isso pode aparecer como vergonha, irritação, distância dos avós ou a sensação de “não ser de lugar nenhum”.

E aqui entra um cuidado: se a criança está vivendo ansiedade, isolamento, conflitos de identidade ou bullying, vale considerar acompanhamento psicológico com alguém que entenda contexto multicultural. Isso não é exagero. É prevenção.

Recursos na Geórgia: você não precisa fazer sozinho

Nossa comunidade tem um recurso precioso: o CAEBA (Centro de Arte e Educação Brasil Atlanta), uma non-profit com a missão de levar português e cultura brasileira para crianças na Geórgia. O CAEBA oferece aulas e funciona como ponto de encontro comunitário. Saiba mais em www.caeba.org.

Além disso, existe um caminho que cabe em quase toda rotina: ligações curtas e frequentes com familiares no Brasil, leitura de historinhas por vídeo, áudios contando histórias da família, uma “caixa de memórias” com fotos e narrativas, livros em português quando disponíveis na biblioteca, e viagens ao Brasil com pequenas “missões” para a criança, como entrevistar um avô ou aprender uma receita.

Seu filho pode ser 100% americano e 100% brasileiro. Mas isso não acontece sozinho. A cultura que não é praticada vira lembrança distante.

A boa notícia é que quase sempre dá para recomeçar. Comece pequeno e com constância: uma conversa por dia em português, uma história por semana, um ritual por mês. Criar filhos bilíngues não é uma meta de perfeição. É um ato de amor repetido, do jeito possível, dentro da vida real.

Da redação