DOCUMENTÁRIO “MEU AYRTON”: Adriane Galisteu dá voz a um amor que o tempo não apagou

Há histórias que resistem ao tempo com a força silenciosa da emoção. Outras, mesmo quando amplamente conhecidas, ganham novas camadas de significado quando revisitadas pelo olhar de quem as viveu por dentro. Meu Ayrton, documentário dirigido por João Wainer e idealizado por Adriane Galisteu, é uma dessas obras raras que não apenas recontam o passado, mas o reumanizam.

Muito além das pistas e da glória esportiva, o documentário mergulha no homem por trás do ídolo Ayrton Senna. Um retrato íntimo, afetivo e corajoso que se distancia das versões heroicas e busca, com delicadeza e respeito, iluminar o que ficou nas entrelinhas da história oficial. Galisteu, que esteve ao lado de Senna em seus últimos meses de vida, empresta sua voz madura e serena para conduzir essa narrativa com o cuidado de quem não quer provar nada, apenas compartilhar a memória de um amor que o mundo inteiro testemunhou, mas poucos conheceram de verdade.

Dividido em dois episódios disponíveis na HBO Max, Meu Ayrton reúne registros raros, cartas, imagens de arquivo e depoimentos de amigos próximos e jornalistas que acompanharam aquele momento tão particular da vida do piloto. A obra se recusa ao espetáculo e encontra força na sutileza. A direção de Wainer opta por um ritmo contemplativo, que valoriza silêncios, gestos e pausas, como se cada cena fosse construída para permitir que o espectador respire junto com a lembrança.

A presença de Galisteu não ocupa o centro da narrativa como protagonista, mas como curadora de uma memória afetiva que deseja ser compreendida. Seu olhar não se impõe, mas conduz. E isso transforma o documentário em algo raro: uma história sobre um mito contada por alguém que o conheceu como homem. O que se vê ali não é a consagração de uma biografia, mas a tentativa sensível de devolver humanidade à figura que, ao se tornar lenda, também foi despersonalizada.

Nesse processo, o documentário toca em um ponto profundo da experiência humana. O que permanece de alguém quando tudo o mais vira lembrança? O que sobrevive quando a imagem pública se sobrepõe à memória privada? Ao se permitir contar sua versão, Adriane Galisteu não reivindica protagonismo. Ela busca completude. Seu relato não contesta o passado, mas o amplia. E ao fazer isso, resgata para si o direito de ocupar um lugar legítimo dentro de uma história que ajudou a construir.

Durante anos, o nome de Adriane foi frequentemente mencionado como um apêndice na vida de Senna. Sempre sob o olhar curioso da imprensa, raramente com o espaço ou a escuta que sua história merecia. Meu Ayrton vem para reparar esse silêncio. É uma reconciliação com o passado, feita sem rancor ou sensacionalismo, mas com a elegância de quem escolhe recordar com beleza.

A ausência de excessos é uma escolha estética e ética. O documentário não busca comover com intensidade, mas com verdade. Não entrega grandes revelações, mas costura pequenas confidências com o fio da vulnerabilidade. E é justamente nesse tom íntimo e sóbrio que a obra conquista sua potência. Porque o amor, quando lembrado com dignidade, transforma-se em arte.

Em tempos de narrativas aceleradas e memórias descartáveis, Meu Ayrton nos convida a desacelerar e escutar. A escutar uma história de amor que resistiu ao tempo, ao luto e ao ruído da fama. A escutar o que permanece mesmo quando tudo já se foi. A escutar a mulher que, por tanto tempo emudecida pela grandiosidade do mito, agora fala com firmeza e doçura. E nesse falar, reconstrói.

Para além da nostalgia, o documentário levanta uma questão importante sobre quem tem o direito de contar a história. Ele nos lembra que toda memória pública é feita de memórias privadas e que nenhuma narrativa é completa enquanto uma das vozes for silenciada.

Ao final da obra, resta uma sensação de paz. A saudade ainda pulsa, mas ela não grita. Ela sussurra. Entre imagens, cartas e pausas bem escolhidas, Meu Ayrton nos entrega algo raro: a chance de ver um dos maiores ídolos da história do Brasil sob a ótica do amor. E mais do que isso, sob a ótica da humanidade.

Adriane Galisteu não quer reescrever o que foi dito. Quer apenas lembrar o que foi vivido. E ao fazer isso, transforma sua experiência pessoal em um legado coletivo, que toca, inspira e emociona. Porque quando a memória é tratada com verdade, ela se torna eterna.

Você pode assistir ao documentário Meu Ayrton na HBO Max. E acompanhar o trabalho de Adriane Galisteu no Instagram: @galisteuoficial

(Nota: Algumas informações e trechos desta matéria têm como referência o texto publicado pela redação da revista Rolling Stone Brasil, em novembro de 2025.)

 

Por Fernanda Noronha
Cantora, Compositora
e Produtora Cultural.
Foto: divulgação