Uma das coisas que amo é separar algumas horinhas no domingo de manhã para estar na igreja, em comunhão com amigos, ouvindo uma Palavra relevante para a minha vida e para a minha família. Em um desses domingos, enquanto ouvia o pastor falar, fui profundamente tocada por uma reflexão sobre a geração atual e as que ainda virão.
Ele explicou como diferentes eras moldaram a forma como as pessoas construíam sua identidade. Na era agrícola, a identidade vinha, principalmente, da família. O sobrenome era um cartão de visita. Era comum alguém se apresentar dizendo de qual família vinha, com quem era casado, de onde era. Não por formalidade, mas porque pertencer a uma família era questão de honra. Por isso, para nossos avós e bisavós, manter o nome da família “limpo” era algo sério, quase sagrado.
Depois veio a era industrial. Aos poucos, a identidade começou a se ligar mais ao que a pessoa fazia do que ao sobrenome que carregava. A pergunta mudou. Passou a ser: “O que você faz?” E muita gente aprendeu a responder: “Eu sou médico”, “Eu sou engenheiro”, “Eu sou jornalista”, como se a profissão definisse o valor e o lugar daquela pessoa no mundo.
Só que hoje não vivemos mais nenhuma dessas realidades. Estamos na era da informação. Em poucos segundos, nossos filhos têm acesso a quase tudo. E, paradoxalmente, é justamente isso que tem deixado tanta gente sem chão. Eles conhecem de tudo, mas não se sentem parte de nada. O resultado é uma crise que tem se tornado cada vez mais visível: a crise de identidade.
Muitos jovens já não constroem sua identidade nem pela família, nem pelo que fazem. Eles se veem cercados por referências demais e raízes de menos. E quando a vida perde sentido, a dor vira um espaço perigoso. Alguns tentam anestesiar essa angústia com prazer imediato, com drogas, com grupos que parecem oferecer pertencimento, ou até com práticas autodestrutivas. O que está por trás de muitas dessas escolhas é a mesma pergunta não respondida: “Quem eu sou?” e “Por que eu existo?”
Isso também aparece na forma como a fama passou a ser enxergada. A celebridade, hoje, muitas vezes não é consequência de uma trajetória, de esforço, de uma construção. Para muitos, ela vira o objetivo em si. O importante não é o que se conquistou, mas ser visto. Ser notado. Ser validado. E, nesse cenário, nós pais enfrentamos um desafio enorme: ajudar nossos filhos a construírem identidade e propósito antes que o mundo tente fazer isso por eles.
Creio que a urgência está em criarmos nossos filhos de forma intencional. Não dá para educar no improviso quando o que está em jogo é caráter, direção, valores e futuro. Aquela filosofia de “deixa a vida me levar” não combina com pais que desejam formar homens e mulheres que façam diferença na sua geração. Todos os dias, pelas nossas atitudes e palavras, estamos ajudando a construir a identidade dos nossos filhos.
Identidade é o reconhecimento de que o indivíduo é um ser próprio. É o conjunto de características que o tornam único. Nome, história, valores, referências, pertencimento, propósito. Em linguagem simples, nossos filhos precisam saber quem são e, principalmente, precisam entender que existe um sentido para estarem aqui.
E isso é ensinado no cotidiano. Na forma como falamos com eles. Na forma como os tratamos. Na maneira como fazemos com que se sintam parte da família, com direitos e responsabilidades. Nossos filhos precisam crescer com a certeza de que são únicos, amados e valorizados. Precisam saber que pertencem a um grupo que acolhe, sustenta e também corrige quando necessário. Precisam entender que não estão vagando sem direção, indo para onde a vida os empurrar.
Li algo interessante recentemente. Um pai, antes de deixar o filho na escola, dizia: “Filho, você é parte da família Smith, e nós ajudamos e amamos as pessoas sozinhas e feridas.” Uma frase simples, mas poderosa. Aquele menino cresceu sabendo que pertencia a uma família, que tinha valores claros, que existia um padrão de conduta e que ele também carregava uma missão. Ele não era um acaso. Ele tinha raízes e propósito.
Eu não sei você, mas eu estou cansada de ouvir tantas notícias de jovens em colapso emocional. Jovens com depressão, crise de ansiedade, jovens ferindo outros e tirando a própria vida. Jovens cheios de talento, energia e futuro, perdidos por não saberem quem são e por não enxergarem propósito. Durante toda a história, o inimigo tentou destruir gerações inteiras. Creio que uma das armas mais fortes usadas contra esta geração é destruir sua identidade.
Está na hora de nos levantarmos como pais, como líderes, como igreja e como sociedade. Está na hora de investir nessa nova geração. Está na hora de ajudá-los a acreditar nos sonhos, nos propósitos de Deus para a vida deles, e caminhar ao lado deles nessa descoberta. Existe um preço a pagar, sim. Mas ele é muito menor do que assistir uma geração perecer por não saber quem é.
A Bíblia está cheia de verdades que nos ajudam a reafirmar a identidade dos nossos filhos. Ela nos lembra que Deus nos criou com intenção, que nada foi acidental.
“Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe. Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável.” (Salmos 139)
“Antes de formá-lo no ventre eu o escolhi; antes de você nascer, eu o separei.” (Jeremias 1:5)
“Criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” (Gênesis 1:27)
“Aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus.” (João 1:12)
“Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus.” (1 Pedro 2:9)
“Eu sei os planos que tenho para vocês, diz o Senhor. Planos de bem, e não de mal.” (Jeremias 29:11)
Como pai e mãe, somos responsáveis por construir a identidade dos nossos filhos. É nosso papel declarar, dia após dia, que eles são amados, importantes e que não são fruto do acaso. Deus tem um plano e um propósito para a vida deles. E quando essa verdade cria raízes no coração, ela se torna uma proteção silenciosa em um mundo que tenta, o tempo todo, dizer o contrário.

Texto por Tathiana Schulze


