Quem disse que você precisa sentir alguma coisa para começar a se cuidar?
O dia ainda nem clareou, e ela já está fazendo contas. Quanto vai receber nesta semana. Qual compromisso pode encaixar. Como chegar ao próximo endereço sem atrasar. O telefone vibra enquanto ela prepara o café. Antes de sair, deixa alguma coisa organizada para quem fica. Sua consulta continua naquela lista de assuntos que vai resolver quando tiver uma manhã livre.
A mulher desta cena é fictícia. Talvez o cansaço dela seja familiar. Ao fim do dia, as costas reclamam, os joelhos pesam, e ainda há roupa para lavar, comida para fazer, mensagens esperando resposta. Na hora de escolher o que pode ficar para depois, quase sempre sobra o cuidado com ela mesma.
Também existe uma explicação que parece tranquilizadora: ela não sente nada nas mamas. Nenhuma dor que interrompa o trabalho. Nenhum incômodo que pareça urgente. Então pensa que pode esperar. A consulta passa para o mês seguinte, e a vida continua preenchendo o espaço que ela ainda não conseguiu reservar para si.

Quantas vezes você já fez uma negociação parecida com o próprio cuidado?
Não sentir dor não confirma que está tudo bem. O câncer de mama pode existir antes de provocar sintomas. A mamografia pode identificar alterações que ainda não são percebidas no dia a dia. Esperar o corpo incomodar para conversar sobre a saúde das mamas pode deixar uma oportunidade de avaliação para depois.1
Eu escrevo isso como editora e como filha. No dia 2 de maio de 2026, perdi minha mãe, Vanda Castilho, para o câncer de mama. A mulher que vocês conheceram nas páginas da revista, em 2024, era a minha mãe. A ausência dela tem um peso que nenhum texto consegue explicar por inteiro.
Antes de perder minha mãe, eu já publicava histórias e informações sobre saúde. Continuo acreditando no valor desse trabalho. Hoje escrevo também sobre a falta que ela faz à nossa família. Essa experiência muda a urgência com que desejo que esta mensagem chegue até você e encontre espaço na sua vida.
Em 2023, minha mãe recebeu o diagnóstico após uma mamografia realizada na Feira da Saúde Brasileira, em parceria com o Northside Hospital. Sua história apareceu na Cia Brasil Magazine. Ela participou do CABI e das campanhas do Outubro Rosa, compartilhando sua experiência e ajudando a aproximar outras mulheres dessa conversa.
Vanda enfrentou a doença com coragem e acreditou na cura. Sua fé fez parte dessa caminhada. Hoje, ao retomar sua história, quero preservar também uma verdade essencial: adoecer não é prova de descuido. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado ampliam as possibilidades de cuidado, mas não oferecem garantia de cura.2
Por isso, falar sobre minha mãe exige respeito pela complexidade do que ela viveu. Cada mulher tem uma história, um tipo de tumor, uma resposta ao tratamento. A doença não permite explicações simples sobre merecimento, força ou vontade. Quem está em tratamento precisa de apoio para atravessar essa experiência, com sua dignidade preservada.
Minha perda está na origem desta campanha. Quero que o nome de Vanda continue associado ao cuidado que ela ajudou a divulgar. E quero conversar com você que lê estas páginas entre uma obrigação e outra, talvez cansada demais para imaginar como uma consulta poderia caber na semana.
Eu sei que uma manhã sem trabalhar pode fazer falta no orçamento. Que encontrar atendimento, entender uma ligação em inglês e descobrir quanto um exame custa pode parecer complicado. Há mulheres que precisam de ajuda para conseguir começar. Uma campanha precisa reconhecer essas dificuldades e ajudar a tornar o caminho mais acessível.

Na Geórgia, o Breast and Cervical Cancer Program oferece serviços gratuitos ou de baixo custo para mulheres que atendem aos critérios do programa. A elegibilidade considera fatores como idade, renda, residência e cobertura de seguro. O departamento de saúde do seu condado pode orientar sobre requisitos e acesso aos serviços.4
Antes de concluir que o atendimento está fora do seu alcance, pergunte quais opções existem. Procure informações sobre assistência financeira. Informe se precisa de ajuda com o idioma. Peça que expliquem custos e próximos passos. Uma dúvida pode ser o começo de uma conversa que você estava tentando resolver sozinha.
O medo de descobrir alguma coisa também pode entrar nessa conta. Buscar uma avaliação ajuda a esclarecer dúvidas e entender suas opções. Você pode conversar sobre esse receio com o profissional que atende você.
Também precisamos desfazer a ideia de que câncer de mama sempre apresenta dor. Um nódulo novo, alterações na pele, mudança no mamilo ou secreção inesperada merecem avaliação. Muitas alterações têm causas benignas. Investigar permite entender o que está acontecendo. Se notar uma mudança, procure atendimento, mesmo sem dor, sem esperar o próximo exame de rotina.2
Para mulheres de risco habitual, a força-tarefa americana USPSTF recomenda mamografia a cada dois anos entre 40 e 74 anos. Essa orientação se refere ao rastreamento sem sintomas. Histórico familiar, condições pessoais e fatores de risco precisam entrar nessa conversa. Seu profissional de saúde pode definir com você quando começar e qual frequência seguir.1
A mamografia ajuda a detectar o câncer; ela não impede que ele apareça. Há medidas que podem reduzir o risco, como manter um peso saudável, praticar atividade física e reduzir ou evitar o consumo de álcool. Esses cuidados fazem parte da saúde ao longo da vida, sem representar proteção absoluta contra a doença.1, 3

Penso na mulher da nossa cena. Ela aprendeu a continuar mesmo cansada. Está acostumada a resolver problemas e a sustentar compromissos. Talvez precise ouvir que pode pedir ajuda para cuidar de si. Que reservar uma consulta também é uma responsabilidade legítima. Sua necessidade de atendimento merece atenção, mesmo em uma semana difícil.
Com esta edição, a Cia Brasil Magazine e o CABI iniciam uma campanha de conscientização sobre o câncer de mama que queremos levar para além de outubro. O propósito é aproximar informação confiável da vida das mulheres, estimular a avaliação adequada e divulgar caminhos de acesso ao cuidado.
Esse trabalho também pertence a quem convive com elas. Pergunte como pode ajudar. Ofereça companhia, transporte ou apoio com os filhos quando isso for possível. Dividir uma tarefa pode abrir espaço para uma consulta. Escutar sem julgamento pode tornar mais fácil falar de um medo que estava sendo guardado.
Se você já recebeu um diagnóstico, esta conversa também é sua. Seu cuidado envolve acompanhamento, tratamento e apoio. Você merece ser ouvida nas decisões sobre sua saúde. E sua história merece respeito, inclusive nos dias em que o cansaço é maior e você precisa que alguém permaneça ao seu lado.
Para quem ainda está adiando, o primeiro passo pode acontecer hoje: verificar quando fez a última mamografia, conversar sobre seu risco ou buscar orientação para marcar uma avaliação. Se existe uma alteração nas mamas, diga isso ao procurar atendimento. O caminho começa com informações claras sobre o que você precisa.
O câncer não espera sua agenda esvaziar. Nem precisa doer para existir.
CDC – Screening for Breast Cancer and CDC. Reducing Risk for Breast Cancer • OMS – Breast cancer • CDC. Reducing Risk for Breast Cancer – GDPH – Breast and Cervical Cancer.
Sua saúde precisa caber na vida que você tem hoje.



